quinta-feira, 4 de julho de 2019

01 | O Baú de Clarissa



Fiquei com um pouco de receio ao subir no pequeno móvel que arrastei até o guarda-roupa, não estava afim de cair ou quebra-lo, mas com muito cuidado consegui pegar o baú antigo, marrom, com uma textura velha, lá estavam minhas memórias mais importantes.
Me sentei no chão ao lado da cama para abri-lo, e comecei a ver as fotos, cartas, cartões e souvenires que vinha colecionando ao longo do tempo. Meus olhos pararam numa foto onde uma garota segurava uma fita cassete e parecia gargalhar no momento registrado.
Minha mente viajou até aquele instante.
Meu quarto antigo, meus ursos no chão, fotos polaroides coladas na parede, e ele. Deitado no tapete dedilhando o violão, cantava enquanto eu mexia nas fitas antigas.
Cada um no seu mundo, juntos. Nós éramos assim, dois estranhos e opostos que se apaixonaram após várias idas na locadora e sorvetes nos fins de tarde. Ele ia de Caetano a Legião, enquanto eu defendia o “faça amor, não faça guerra”, com meus óculos a lá John Lennon e ele de pé de chinelo e camisa creme.
Seu cabelo cacheado se entrelaçava nos meus dedos com unhas pretas e a cada beijo, manchas de batom vermelho cobriam a maior parte dos nossos rostos.
Ele amava aventuras e novos mundos, enquanto eu só sabia ler revistas e no máximo algum livro com um romance bem clichê.
Ele todo calmo, daqueles que ri para o vento, e te olha de uma forma que no fim você sabe que vai ficar tudo bem, e eu: a crise em pessoa.
Ele dizia que o nosso amor era como um grão, um dia teríamos que mata-lo para então germinar. Mas eu não entendi.
Com o tempo eu sufoquei aquele pequeno grão, não o permitia sorrir, e os seus olhos, antes tranquilos como um mar calmo, passaram a ficar densos e molhados.
A garota na foto com a fita na mão, a fita que atrás continha escrito em caneta azul um trecho de uma música do Jota Quest “Mas quando eu penso em alguém é por você que eu fecho os olhos...”, essa mesma garota não sabia que aquela seria a última vez que sorriria diante dos olhos calmos.
Afinal, ela matou o grão sem enterra-lo.
Viro a foto e vejo escrito com a mesma caneta azul, nossos nomes dentro de um coração manchado com uma gota de lágrima.
E agora mais uma lagrima cai.




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